O tratamento mais barato é o que mais falha — e o laser não sai mais barato que a cirurgia
O ensaio randomizado que comparou EVLA, radiofrequência, espuma e stripping em 580 pernas também publicou o custo de cada braço, dividido em custo de procedimento e trabalho perdido. Lida com atenção, essa tabela inverte o ranking e muda a conversa da consulta.
Ver a aula em vídeoO ensaio de Rasmussen e colaboradores é citado quase sempre pela mesma linha: os quatro tratamentos funcionam, e a espuma falha mais. A última tabela do artigo, porém, traz outra coisa — o custo de cada braço, separado em custo relacionado ao procedimento e custo indireto do trabalho perdido. É a tabela que menos circula e a que mais muda a decisão administrativa.
O desenho, em uma linha
Foram 500 pacientes consecutivos, 580 pernas, randomizados em dois centros cirúrgicos da Dinamarca para EVLA, radiofrequência (ClosureFAST), escleroterapia com espuma guiada por ultrassom ou ligadura alta com stripping. Todos os procedimentos foram feitos com anestesia local tumescente e sedação leve, e o seguimento foi de 3 dias, 1 mês e 1 ano.
O viés de desenho que a tabela de custo esconde
Como última etapa do tratamento, todas as varizes foram removidas por flebectomia em todos os grupos, na mesma sessão. A mediana foi de 14 flebectomias no braço EVLA, 16 na radiofrequência, 8,5 na espuma e 15 no stripping. Nenhum dos custos publicados é, portanto, o custo do tratamento do tronco isolado: é o custo de um pacote que inclui flebectomia, e o pacote não é idêntico entre os braços.

Custo do procedimento
Os itens fixos foram iguais nos quatro braços: 189 euros de pré-tratamento e 161 euros de duplex de controle. O reembolso foi de 644 euros para os três procedimentos endovenosos e 729 euros para o stripping. O equipamento apareceu só em dois braços: 366 euros de laser e 442 euros de cateter de radiofrequência. Os totais de procedimento ficaram em 1360 euros no EVLA, 1436 na radiofrequência, 994 na espuma e 1079 no stripping.

O custo indireto inverte o ranking
O trabalho perdido custou 840 euros no EVLA, 560 na radiofrequência, 560 na espuma e 1120 no stripping. Somados, os custos totais foram de 2200 euros no EVLA, 1996 na radiofrequência, 1554 na espuma e 2199 no stripping. A espuma seguiu mais barata; o resto mudou de lugar.

A radiofrequência é o caso mais instrutivo: tem o procedimento mais caro da tabela, 1436 euros, e ainda assim termina com o menor custo total entre os braços que não são espuma, 1996 euros. O desempate ocorreu no afastamento do trabalho — 2,9 dias contra 3,6 do EVLA e 4,3 do stripping. O tempo de cirurgião, que variou de 19 minutos na espuma a 32 no stripping, não entra na conta: o reembolso é fixo por procedimento.
O preço é de um ano, não do desfecho
O braço mais barato é o mesmo que falhou mais: 20 safenas (16,3%) patentes e com refluxo em 1 ano na espuma, contra 6 (4,8%) na radiofrequência, 4 (4,8%) no stripping e 7 (5,8%) no EVLA. E o protocolo já permitia uma sessão extra de espuma no primeiro mês, usada em cinco pacientes. O valor de 1554 euros é, portanto, o preço de um ano de seguimento — não o preço de resolver o refluxo.

O que o estudo não autoriza afirmar
Os próprios autores escrevem que os custos apresentados são de curto prazo e que não foi possível estimar o custo das falhas de tratamento que venham a surgir depois, e que os cálculos se basearam no sistema de preços fixos por procedimento e no nível de produtividade da Dinamarca — o que não se transporta para outro país. Some-se a isso o seguimento de apenas 1 ano, a ausência de cegamento do tratamento e dos exames de acompanhamento, a variação de técnica dentro do braço a laser (17 pacientes tratados com 980 nm e 20 em modo pulsado) e o pacote com flebectomia em todos os grupos. A tabela responde quanto custou um ano naquele sistema; não responde quanto custa tratar refluxo de safena magna até o desfecho, nem em qualquer outro lugar.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).