Venoativos · úlcera venosa

O comprimido que fecha a úlcera venosa mais rápido — e o que ele não faz

A revisão de 2025 do Journal of Vascular Surgery: Venous and Lymphatic Disorders separa o que é marketing do que é evidência nos compostos venoativos. No desfecho mais duro — úlcera cicatrizada — três drogas chegam ao nível A, e sempre como adjuvantes da compressão.

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A úlcera venosa da perna é o estágio avançado da doença venosa crônica — a classe C6 da classificação CEAP. O objetivo do tratamento é diminuir a hipertensão venosa: compressão médica, ablação do refluxo ou tratamento da obstrução profunda quando viáveis, e manejo local da ferida. A pergunta desta revisão é a que sobra: existe terapia médica adjuvante com evidência que se sustente?

A válvula que não fecha deixa o sangue descer e a veia se dilatar: é o mecanismo que mantém a pressão alta na perna ulcerada. Nenhum comprimido devolve a válvula ao lugar — por isso o venoativo entra como adjuvante.
A válvula que não fecha deixa o sangue descer e a veia se dilatar: é o mecanismo que mantém a pressão alta na perna ulcerada. Nenhum comprimido devolve a válvula ao lugar — por isso o venoativo entra como adjuvante.

O que os venoativos fazem, e o que não são

Os compostos venoativos compartilham efeitos: selam a barreira endotelial, melhoram a drenagem linfática, reduzem o edema ortostático, melhoram o tônus venoso, inibem a adesão de leucócitos às paredes e válvulas venosas e a liberação de mediadores inflamatórios, diminuem a viscosidade sanguínea e promovem a flexibilidade dos glóbulos vermelhos. O grupo, porém, não é homogêneo: nem todos demonstram atividade em todas essas direções, e é essa heterogeneidade que explica a diferença de eficácia clínica entre eles.

MPFF: a metanálise de cinco ensaios

A fração flavonoide purificada micronizada (MPFF) foi avaliada em metanálise de cinco ensaios randomizados prospectivos com 723 pacientes com úlcera venosa. Em três ensaios o comparador foi o tratamento padrão isolado; nos outros, tratamento padrão mais placebo. A duração foi de dois meses em um ensaio (500 mg BID) e de seis meses nos outros quatro.

As barras comparam a úlcera cicatrizada aos seis meses com a droga e com o tratamento padrão, nos quatro ensaios que somam 616 pacientes. A distância entre elas é o tamanho real do que se ganha.
As barras comparam a úlcera cicatrizada aos seis meses com a droga e com o tratamento padrão, nos quatro ensaios que somam 616 pacientes. A distância entre elas é o tamanho real do que se ganha.

A diferença veio acompanhada de um tempo de cicatrização mais curto: 16 contra 21 semanas. Na análise após dois meses, com os cinco ensaios e 723 pacientes, a chance de cicatrização foi significativamente maior no grupo com MPFF adjuvante (p = 0,015). Na metanálise Cochrane sobre flavonoides, a taxa de cicatrização foi maior no grupo MPFF (RR 1,36; IC 95% 1,07 a 1,74).

O subgrupo é a parte que muda a conduta

O benefício do MPFF não foi uniforme. Concentrou-se em úlceras de 5 a 10 cm² (RRR 40%, IC 95% 6-87%) e com duração de 6 a 12 meses (RRR 44%, IC 95% 6-97%). Em úlceras maiores que 10 cm² ou menores que 5 cm², nenhum efeito significativo do MPFF sobre o tratamento padrão foi encontrado. É um dado de indicação, não de promessa.

Sulodexida

No RCT SUAVIS, controlado por placebo, com 235 pacientes randomizados, a sulodexida somada à compressão e ao tratamento local levou a cicatrização completa em dois meses de 35% contra 20,9% no placebo (p = 0,018); em três meses, 52,5% contra 32,7% (p = 0,004). A análise Cochrane, com três RCTs e 438 pacientes, mostrou melhora da cicatrização de 29,8% para 49,4% (RR 1,66; IC 95% 1,30 a 2,12).

O desenho isola o desfecho de três meses do SUAVIS: sulodexida contra placebo, os dois sobre compressão e cuidado local. A barra menor é o que o tratamento padrão já entrega sozinho.
O desenho isola o desfecho de três meses do SUAVIS: sulodexida contra placebo, os dois sobre compressão e cuidado local. A barra menor é o que o tratamento padrão já entrega sozinho.

Pentoxifilina

As diretrizes do Fórum Venoso Europeu de 2018 apontam exatamente estas três drogas como as de nível mais alto de evidência na cicatrização de úlcera venosa: pentoxifilina, MPFF e sulodexida. As diretrizes da ESVS de 2022 sugerem MPFF, hidroxietilrutosídeos, pentoxifilina ou sulodexida como tratamento adjuvante.

O que a revisão não autoriza afirmar

Em todos os ensaios citados a droga foi adjuvante: entrou sobre a compressão médica e o cuidado local da ferida, nunca no lugar deles — nenhum dado aqui autoriza substituir compressão por comprimido. O ganho do MPFF não apareceu em úlceras maiores que 10 cm² nem menores que 5 cm². A pentoxifilina tem preço: efeitos adversos, principalmente gastrointestinais, em 19,5% dos pacientes contra 11,3% no placebo (RR 1,56; IC 95% 1,10 a 2,22). Para os hidroxietilrutosídeos, dois ensaios controlados por placebo e um comparando compressão com e sem a droga não relataram benefício adicional na cicatrização, e os próprios autores da análise Cochrane apontam qualidade limitada dos dados e risco incerto de viés. Por fim, isto é uma revisão que classifica evidência existente pelo método GRADE — não um ensaio novo, e não substitui a indicação individual feita por um cirurgião vascular.

Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).

Formação prática

Esta técnica é ensinada com paciente real.

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