4,3% ao ano: o que acontece com a variz que ninguém tratou
A revisão de Whiteley reúne o que se sabe sobre a variz deixada sem tratamento: uma taxa anual de deterioração por estágio CEAP, um ensaio randomizado em que a compressão perdeu em qualidade de vida, e a linha que separa indicação médica de serviço estético.
Ver a aula em vídeoA pergunta que o paciente faz e que raramente recebe resposta numérica é "e se eu não tratar?". A revisão de Whiteley responde com um número, define o que significa piorar e mostra por que, na leitura do autor, meia de compressão e venotônico não ocupam o lugar do tratamento.
A taxa anual de deterioração

A deterioração foi definida pelos estágios clínicos do CEAP: C2, varizes; C3, tornozelos inchados; C4, dano de pele — eczema venoso ou hemosiderina; e C6, úlcera venosa de perna. C5, úlcera venosa cicatrizada, não faz parte dessa progressão porque não é um estágio seguinte. A lista do que a doença não tratada pode produzir inclui ainda trombose venosa superficial e sangramento a partir da variz.

O ensaio REACTIV
O REACTIV randomizou pacientes entre o melhor tratamento clínico — meia de compressão graduada — e o tratamento das varizes. Os pacientes alocados à compressão tiveram pior qualidade de vida após dois anos. O detalhe que muda a leitura é que o braço de tratamento era cirurgia com stripping; o próprio autor comenta que, com técnicas endovenosas ambulatoriais modernas, a vantagem em qualidade de vida provavelmente apareceria muito mais cedo — o que é hipótese dele, não medida do ensaio.
Compressão e venotônico no lugar certo
Meia de compressão graduada reduz o refluxo enquanto está sendo usada; removida, o refluxo retorna. Por isso, na leitura do autor, não há justificativa para recomendá-la como tratamento das varizes, salvo quando o paciente não pode ou não quer uma intervenção curativa. A exceção legítima é a variz secundária a síndrome pós-trombótica ou insuficiência venosa profunda, quando a condição tratada não é a variz. Os venotrópicos, como a fração flavonoide micronizada purificada, reduzem sintomas e edema da insuficiência venosa crônica, mas não tratam o refluxo subjacente — alívio temporário, sem papel curativo.

Daí decorre uma crítica operacional direta: não há lógica em exigir o uso de meia por um período antes de liberar o tratamento, para ver se os sintomas melhoram. Tal estratégia apenas atrasa a investigação e o tratamento — e é por esse atraso, escreve o autor, que financiadores de saúde frequentemente insistem no teste de compressão.
Quem investigar e tratar
Em julho de 2013 o NICE publicou a diretriz clínica CG 168. Paciente com variz sangrante deve ser encaminhado imediatamente. Devem ser encaminhados a um serviço vascular os pacientes com varizes — ou suspeita de varizes ocultas — e qualquer um destes achados: varizes primárias ou recorrentes com sintomas, definidos como dor, latejamento, desconforto, inchaço, peso e coceira; eczema ou pigmentação da parte inferior da perna; trombose venosa superficial; úlcera venosa de perna; ou úlcera venosa cicatrizada.
A linha entre indicação médica e serviço estético
Pacientes sem sintomas nem sinais de doença venosa, além das veias visíveis, podem ser investigados e tratados desde que o médico esteja ciente de que presta um serviço estético, e não trata uma condição médica. O consentimento precisa refletir isso, porque não se está oferecendo vantagem médica e porque um resultado adverso gerará preocupação. Ainda assim existe um piso técnico: à luz da literatura publicada, tratar telangiectasias de perna sem avaliação pré-operatória com duplex à procura de refluxo é, nas palavras do autor, provavelmente indefensável — a maioria tem refluxo subjacente de safenas, perfurantes ou veias locais que alimentam as telangiectasias.
O que este artigo não autoriza afirmar
Trata-se de revisão narrativa de autor único, não de revisão sistemática nem de ensaio: não há protocolo de busca declarado nem braço comparador. A taxa de 4,3% ao ano provém de revisão de estudos epidemiológicos observacionais e descreve a média de coortes — não prediz o curso de um paciente específico, nem permite dizer a alguém em que ano ele terá uma úlcera. O REACTIV comparou compressão com stripping, de modo que a superioridade demonstrada não é a das técnicas endovenosas atuais. A diretriz citada é britânica e organiza o encaminhamento dentro daquele sistema de saúde. Por fim, o autor declara ser o fundador do College of Phlebology, cujo registro venoso ele recomenda tornar obrigatório — conflito que consta da própria seção de divulgação do artigo e que o leitor deve pesar ao ler as recomendações de prática.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).