Escleroterapia · PG3T

A mistura ganhou o ensaio — mas o intervalo de confiança vai de 3 a 71 pacientes

O ensaio triplo-cego PG3T mostrou superioridade da mistura polidocanol 0,2% + glicose 70% sobre a glicose 75% isolada na escleroterapia de telangiectasias. A pergunta que decide conduta não é se a diferença existe, e sim quanto ela vale — e a resposta está no NNT e no volume injetado.

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Telangiectasias afetam mais de 80% dos indivíduos e são mais comuns em mulheres. A escleroterapia segue sendo o tratamento predominante, e no Brasil a escolha do agente se reduz, na prática, a duas soluções registradas na ANVISA: glicose hipertônica a 75% isolada e a mistura de polidocanol 0,2% com glicose hipertônica a 70%. Até o ensaio PG3T, as duas nunca tinham sido comparadas frente a frente em telangiectasias.

O desenho do PG3T

Ensaio prospectivo, randomizado, triplo-cego, controlado, de grupo paralelo, em um único centro universitário brasileiro. De 308 pacientes recrutadas, 115 foram randomizadas 1:1 — 58 para polidocanol 0,2% + glicose 70% e 57 para glicose 75% isolada; 98 completaram o estudo. As participantes eram mulheres de 18 a 65 anos com telangiectasias na face lateral de uma coxa e doença venosa leve. O cegamento foi rigoroso: uma enfermeira independente preparava, em sala separada, uma seringa com 5 mL identificada apenas pelo número de protocolo, e as duas soluções eram incolores, inodoras e de viscosidade semelhante. Paciente, equipe, avaliadores e o estatístico foram cegados.

A área tratada foi delimitada por um gabarito de tecido: um retângulo de 150 cm², de 15 por 10 cm, posicionado 5 cm acima da linha articular do joelho, em um só membro. Sessão única, volume máximo de 0,3 mL por punção, até o branqueamento. As fotografias de D0 e D60 foram medidas no ImageJ, com a ferramenta de linha segmentada, por dois cirurgiões vasculares independentes e cegos à alocação — a concordância interobservador ficou entre 0,95 e 0,99.

O desfecho primário

A mediana de eliminação das telangiectasias na área-alvo favoreceu a mistura: 82,2% contra 63,9% da glicose isolada, em sessão única e 60 dias de seguimento. Em comprimento absoluto de vaso obliterado, a diferença se manteve: 30,9 cm contra 24,1 cm, com p = 0,044.

A comparação direta do desfecho primário, em mediana de eliminação na área delimitada pelo gabarito.
A comparação direta do desfecho primário, em mediana de eliminação na área delimitada pelo gabarito.

Quanto vale a superioridade

A pergunta que decide conduta não é se a diferença existe, e sim qual é a sua magnitude. Adotando o limiar clinicamente relevante de pelo menos 75% de melhora, a redução de risco foi de 0,49, com intervalo de confiança de 95% de 0,24 a 0,98 e p = 0,047. O limite superior quase toca a unidade: a significância existe, mas é estreita.

Na régua, a estimativa pontual do NNT quase encosta no limite inferior do intervalo — a incerteza está quase toda do lado caro.
Na régua, a estimativa pontual do NNT quase encosta no limite inferior do intervalo — a incerteza está quase toda do lado caro.

A dose não foi igual

Entre os parâmetros do procedimento, um não fechou. O volume médio de solução utilizada foi de 2,3 mL no grupo da mistura e 2,0 mL no grupo da glicose isolada, com p = 0,049 — diferença que os próprios autores descrevem como não intencional. Num ensaio triplo-cego, em que a seringa saía pronta de outra sala, o braço que apresentou o melhor desfecho recebeu mais esclerosante. Com este desenho não é possível separar o efeito da mistura do efeito da dose.

Os dois volumes médios na mesma escala da seringa de 5 mL usada no protocolo.
Os dois volumes médios na mesma escala da seringa de 5 mL usada no protocolo.

Segurança

Não ocorreram eventos adversos graves em nenhum dos grupos: sem trombose venosa profunda, necrose tecidual, anafilaxia ou punção arterial acidental. A pigmentação foi o evento adverso menor mais comum e apareceu nos dois braços. Vale registrar quem entrou: 48 de 98 pacientes, ou 49%, tinham veia reticular alimentadora dentro do campo tratado, sem diferença entre os grupos — essas veias foram tratadas nas mesmas condições.

O que o estudo não autoriza afirmar

O seguimento foi de 60 dias, em centro único: recanalização, recidiva e durabilidade de médio prazo estão fora da janela observada. Das 115 randomizadas, 98 completaram o estudo; as demais não compareceram às consultas e foram excluídas, e a análise foi feita por protocolo, não por intenção de tratar. A população é estreita — apenas mulheres de 18 a 65 anos, doença venosa leve, uma coxa, 150 cm², sessão única — e não houve grupo placebo com procedimento simulado. Os autores optaram por não usar compressão elástica, o que, por decisão deles mesmos, tende a reduzir a eficácia e aumentar a pigmentação nos dois braços. Polidocanol líquido puro e espuma não foram testados, e a metodologia de medição por ImageJ não permite comparação direta com as séries que usam escores subjetivos. Somando a isso a diferença de volume, o que o PG3T sustenta é uma alternativa a mais na rotina da escleroterapia — não um novo padrão de cuidado.

Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).

Formação prática

Esta técnica é ensinada com paciente real.

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