Lipedema ou linfedema? Os sinais que separam as duas pernas inchadas no consultório
Uma revisão de mecanismo organiza as duas doenças pela ordem em que fluido, gordura e fibrose aparecem — e essa ordem é o que o exame físico detecta: pé poupado, ausência de cacifo, resposta à elevação, simetria e dor. Sem biomarcador, sem imagem que feche: o diagnóstico é clínico.
Ver a aula em vídeoO linfedema afeta entre 140 e 250 milhões de pessoas no mundo; o lipedema, segundo a estimativa que a revisão adota, até 6 a 11% das mulheres. As duas chegam ao cirurgião vascular como "perna inchada", e a paciente rotulada errado recebe o tratamento errado. A revisão de Duhon e colaboradores, escrita por fisiologistas e engenheiros biomédicos, organiza as duas doenças por um eixo simples: a ordem em que fluido, gordura e fibrose aparecem.
Cinco sinais no exame físico
O pé: o lipedema poupa mãos e pés; no linfedema o pé participa e o sinal de Stemmer costuma ser positivo — mas a revisão registra que ele não é patognomônico. O cacifo e a elevação: no linfedema em estágio 1 o edema faz cacifo e melhora com a perna elevada; no lipedema há um turgor fibrótico, sem cacifo, que persiste apesar da elevação. A simetria: o lipedema é bilateral e simétrico; o linfedema pode ser unilateral, sobretudo o secundário a dissecção linfonodal ou radioterapia. A dor: presente em até 90% das pacientes com lipedema, independentemente do IMC, acompanhada de hematomas fáceis por fragilidade capilar. A distribuição: gordura ginoide resistente à perda de peso, com edema persistente e nódulos subcutâneos palpáveis, contra a obesidade androide, responsiva à dieta, sem edema e sem dor.

A ordem: fluido, gordura e fibrose
No linfedema, o fluido vem primeiro, a gordura se deposita depois e a fibrose aparece no estágio 2. No lipedema, a fibrose já está presente no estágio 1 e o componente de fluido aparece mais tarde. É por isso que o exame difere: cacifo cedo no linfedema, turgor firme cedo no lipedema. A revisão acrescenta que o lipedema também tem transporte linfático comprometido, com VEGF-C aumentado sem mudança de arquitetura, além de microangiopatia e fragilidade capilar — e que as duas doenças podem coexistir. Na célula, o linfedema é conduzido por linfócitos T CD4 e resposta Th2; o lipedema, por macrófagos em estruturas em coroa, sem o mesmo envolvimento de células T. Os autores admitem que a fisiopatologia do lipedema é significativamente menos compreendida que a do linfedema.

Genética: o que o teste faz e o que não faz
Cerca de um terço do linfedema primário tem mutação conhecida. Para o lipedema, a revisão cita 21 variantes de deleção em 12 genes e um estudo de associação genômica com 130 pacientes, sem gene causal estabelecido. A recomendação prática é que o teste genético, no lipedema, serve apenas para excluir outras condições.
O que a revisão não autoriza afirmar
Não autoriza indicar suplemento: nattokinase, selênio e diosmina aparecem com a frase "alguma eficácia, mas requerem mais estudo". Não autoriza dizer que a ordem fluido-gordura-fibrose está provada: a figura mostra a inversão com uma seta tracejada, e seta tracejada é hipótese. Não autoriza prognóstico: o texto fala em escassez de opções de tratamento quando o diagnóstico falha. É revisão narrativa, sem método sistemático de busca; a prevalência de 6 a 11% foi estimada a partir de mulheres tratadas por linfedema que tinham lipedema; os 90% de dor vêm de uma única referência; boa parte do mecanismo vem de modelo animal; e o financiamento inclui a Lipedema Foundation, declarada sem papel na escrita. Nada disso muda o que vale: o diagnóstico é exame físico treinado e história bem colhida, sem biomarcador nem imagem que feche. Compromisso sim, garantia nunca.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).