As duas pernas da mesma paciente — e o avaliador cego que não viu diferença
Um ensaio randomizado tratou uma perna com laser Nd:YAG e a outra com espuma de polidocanol, na mesma paciente. O dermatologista que executou os dois deu notas diferentes às duas pernas; os avaliadores cegos, olhando as mesmas fotografias, não encontraram diferença (P 0,84).
Ver a aula em vídeoTelangiectasias de membros inferiores são extremamente comuns: um estudo epidemiológico alemão encontrou telangiectasias ou veias reticulares isoladas em 59% da população adulta geral. Em mais da metade dos casos, sintomas relacionados à hipertensão venosa aparecem ao longo da evolução — não é só questão estética.

O desenho intrapaciente
Cinquenta e seis mulheres com telangiectasias primárias e veias reticulares (C1A), fototipos I a III, entre 23 e 66 anos (média 46), foram incluídas. Pacientes com varizes acima de C1, doença arterial oclusiva ou gestação foram excluídas, e todas passaram por duplex — nenhuma tinha refluxo maior que um segundo em veias profundas, junções safenas, troncos, tributárias ou perfurantes. Se as veias não fossem simétricas entre as pernas, a paciente era excluída. Uma perna foi sorteada para o laser Nd:YAG de pulso longo sincronizado; a outra recebeu escleroterapia com espuma. Cinquenta e uma das 56 completaram o estudo.
O laser usou fluências de 100 a 200 J/cm², spot de 3 a 7 mm e largura de pulso de 10 a 50 ms, com resfriamento por ar frio; o desfecho técnico era o fechamento clinicamente observável do vaso durante a irradiação. A escleroterapia usou polidocanol 0,5% em espuma, seringa de 2 mL e agulha 30G — com transiluminação, alcançando também a reticular nutridora. Duas sessões com 6 semanas de intervalo, meia de compressão de 26 a 32 mmHg durante o dia por 3 semanas, e reavaliação em 6 semanas e 6 meses.
O achado que interessa: quem julga o resultado
O clareamento foi pontuado numa escala de seis pontos (1 = nenhuma melhora; 3 = 30-40%; 4 = 50-70%; 5 = acima de 70%; 6 = 100% clareado). Na avaliação final do dermatologista que executou os dois tratamentos, a perna do laser ficou com mediana 3 (IQR 2) e a perna da espuma com mediana 4 (IQR 2), diferença significativa (P < 0,001). Os dois avaliadores cegos, que não participaram da fase clínica, pontuaram as mesmas fotografias com mediana 5 (IQR 1) para ambas as pernas.

Os próprios autores explicam a discrepância: o dermatologista não cego tinha muitos anos de experiência com escleroterapia e se sentia mais confiante com ela. A escleroterapia foi, de fato, mais rápida a clarear — tanto para o médico que tratou quanto para os cegos — mas, na última visita, a diferença tinha desaparecido.
Efeitos colaterais: aí o placar inverte

Os autores atribuem a taxa alta à escolha da espuma: a espuma desloca o sangue, entra em contato pleno com o endotélio e adere melhor à parede, sendo mais eficaz que a forma líquida — e, pela mesma razão, associada a mais pigmentação. Matting ocorreu com frequência igual nas duas técnicas, em 20%. Necrose cutânea limitada apareceu em um paciente de cada grupo. A satisfação foi igualmente alta nos dois lados (mediana 5, IQR 2; P 0,58 na percepção subjetiva de melhora). Houve diferença significativa na dor: o laser foi sentido como mais doloroso (P 0,003).

O que o estudo não autoriza afirmar
O ensaio é aberto — nem pacientes nem o médico executante eram cegos, e foi justamente essa ausência de cegamento que produziu o achado central. A população é estreita: só mulheres, fototipos I a III, C1A, sem refluxo troncular, com telangiectasias de 0,2 a 1 mm e reticulares de 1 a 2,9 mm, e simetria entre as pernas como exigência de inclusão. Nada disso se transporta para safena insuficiente, para pele mais pigmentada nem para homens. O seguimento é de 6 meses após a segunda sessão: não há dado de recorrência a longo prazo, e a hiperpigmentação, embora costume regredir em 6 a 24 meses, pode persistir mais de um ano. O desfecho é fotográfico e ordinal, não uma medida objetiva de oclusão. E o resultado "sem diferença" é ausência de diferença detectada com 56 pacientes — não prova de equivalência.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).