Uma perna com laser, a outra com glicose: quando a foto e a paciente discordam
Trinta mulheres, uma perna sorteada para cada método, três sessões e dois avaliadores cegados. Na análise fotográfica o laser clareou mais (7,9 × 7,0). Na dor e na satisfação, a escleroterapia venceu. O artigo conclui que os dois tratam igualmente bem.
Ver a aula em vídeoA telangiectasia de membros inferiores afeta aproximadamente 40% das mulheres e 15% dos homens. A escleroterapia, usada desde 1930, continua sendo o tratamento padrão-ouro pelo baixo custo e pelos bons resultados, em geral com glicose hipertônica a 75% por agulha 27 ou 30 G. O laser entrou na disputa depois de Anderson e Parrish descreverem a fototermólise seletiva em 1983 — mas poucos trabalhos compararam os dois prospectivamente, e nenhum tinha comparado o Nd:YAG com a glicose hipertônica no mesmo paciente ao longo de três sessões.

O desenho intrapaciente
Trinta mulheres de 25 a 65 anos (média 43), com fototipos I a VI e telangiectasias de 0,5 a 1,5 mm de diâmetro, foram incluídas. Todas eram CEAP C1: pacientes com sinais evidentes de insuficiência venosa crônica ou varizes (C2 e acima), grávidas, lactantes ou em anticoagulação foram excluídas. Em cada paciente, uma perna foi aleatoriamente designada para laser (Xeo, Cutera) e a outra para escleroterapia com solução de glicose a 75%, em locais comparáveis do tornozelo, panturrilha, fossa poplítea e coxa. O mesmo médico aplicou as duas modalidades, em três sessões com intervalo de um mês.

O laser foi aplicado com spot resfriado de 3 mm a 1 Hz, fluência de 100 a 120 J/cm² e largura de pulso de 15 ms (vasos menores) ou 30 ms (vasos maiores), com resfriamento da pele antes e depois dos pulsos; os pontos finais foram o escurecimento do vaso alvo e o eritema perivascular. A escleroterapia foi feita com injeções de baixo fluxo, seringa de 3 mL e agulha 30 G, até o clareamento completo do vaso, totalizando 1 a 2 mL por sessão, sem compressão posterior e com orientação de evitar sol por 7 dias. As fotografias foram feitas antes e 1 semana após o tratamento e pontuadas de 0 (nenhuma melhora) a 10 (clareamento completo) pelo médico aplicador e por dois observadores independentes cegados.
O desfecho objetivo favorece o laser

Os desfechos relatados favorecem a glicose
Na avaliação da dor houve diferença significativa entre as modalidades. Consideraram o tratamento "muito doloroso" 20 pacientes (66,66%) no laser contra 4 (13,34%) na escleroterapia; "extremamente doloroso", 3 (10%) no laser e nenhuma na escleroterapia. No outro extremo, 26 pacientes (86,66%) classificaram a escleroterapia como apenas "levemente dolorosa", contra 7 (22,33%) no laser. Os autores atribuem isso ao fato de não terem usado nenhum dispositivo de resfriamento além do sistema do próprio aparelho, e lembram que spots menores e durações de pulso mais longas reduzem a dor.

Quanto ao clareamento na percepção das pacientes, 12 consideraram o resultado do laser bom a excelente e 16 disseram o mesmo da escleroterapia, sem diferença estatística; quatro classificaram o resultado do laser como ruim, e nenhuma classificou assim o da escleroterapia. Na satisfação, 18 ficaram completamente satisfeitas com a escleroterapia contra 12 com o laser, e quatro não ficaram nada satisfeitas com o laser, diferença que alcançou significância.
As pacientes toleraram bem as duas modalidades e nenhuma complicação grave foi observada. Houve um caso de hiperpigmentação pós-inflamatória transitória relacionada a cada modalidade, e uma paciente desenvolveu uma cicatriz na área tratada a laser, num único local alvo, sem comprometimento da aparência estética final — provavelmente por exposição solar prévia e maior absorção de energia pela melanina.
O que o estudo não autoriza afirmar
São 30 pacientes num único centro, e o controle fotográfico foi feito 1 semana após o tratamento: o artigo não traz dado nenhum sobre recidiva, matting tardio ou resultado em meses. Só foram incluídas pacientes CEAP C1, de modo que nada aqui se transporta para tronco safeno ou varizes. A comparação é entre um aparelho e um protocolo específicos, e os próprios autores afirmam que resfriamento mais intenso e spots menores mudam substancialmente a dor relatada — a diferença medida não é uma propriedade fixa do laser Nd:YAG. E o texto lembra que a hiperpigmentação de vasos maiores poderia ter sido prevenida tratando antes as varizes colaterais nutridoras: não se trata a telangiectasia sem tratar o refluxo que a alimenta. A conclusão publicada é que as duas modalidades tratam igualmente bem, que a escleroterapia custa menos e dói menos, e que o laser é recomendado para pacientes com matting telangiectático, fobia de agulha ou reação alérgica a esclerosantes — o que é uma indicação, não uma promessa de resultado.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).