Espuma primeiro, laser depois — e uma janela de 1 a 3 minutos entre os dois
Um ensaio randomizado com avaliação cega acompanhou 517 pernas tratadas com microespuma de polidocanol seguida de laser Nd:YAG, contra 79 tratadas só com espuma, por três anos. A sequência — e a espera entre os dois passos — é o que define o método. E ela tem um custo em dor.
Ver a aula em vídeoA escleroterapia continua sendo o padrão-ouro para telangiectasias e veias reticulares com menos de 4 mm. O gargalo não é a eficácia por vaso, é a área: quando a varicosidade cobre grande parte das duas pernas, o limite de dose por sessão impõe um número alto de sessões e tratamentos de manutenção. Esse é o problema que o método combinado tenta resolver.
O desenho do ensaio
Ensaio clínico randomizado, controlado por polidocanol, com avaliação cega. Foram recrutadas 320 pacientes, todas mulheres, de 19 a 72 anos (média de 46,3), fototipos Fitzpatrick II a IV, com mais de 20% da superfície da perna acometida e sem tratamento prévio. Refluxo do sistema profundo, confirmado por Doppler, era critério de exclusão. A randomização por envelope selado alocou 550 pernas ao tratamento combinado e 90 ao polidocanol isolado; com as perdas, a análise ficou em 517 e 79 pernas. Três médicos cegos classificaram as fotografias (kappa de 0,86 e 0,81 contra o primeiro avaliador).
A técnica, passo a passo
A microespuma foi preparada pela técnica de Tessari: 2 mL de polidocanol a 0,3% para 8 mL de ar, alternados entre duas seringas 15 vezes. A injeção usou seringa de 2 mL e agulha 30G, com máximo de 20 mL nas duas pernas somadas — em geral menos de 10 mL por perna. A injeção branqueia o vaso; segue-se uma espera de 1 a 3 minutos até que ele recupere uma cor rosa suave, e só então o laser é aplicado ao longo de todo o trajeto.
O laser foi um Nd:YAG de pulso longo de 1064 nm, com spot de 2 a 5 mm acompanhando o calibre do vaso e resfriamento simultâneo da pele por câmara de vidro e fluxo de ar a 4 °C. Energia por pulso de 9,42 J no spot de 2 mm e 11,77 J no de 5 mm; largura de pulso de 30 ms nas classes I e II e 50 ms na classe III; repetição de 5 Hz e 2 Hz, respectivamente. Cada perna leva de 20 a 25 minutos, e uma sessão com as duas pernas inteiras dura menos de 1 hora. Foram duas sessões, com três semanas de intervalo, e meia de compressão por duas semanas.
O resultado aos três anos
O padrão se repete nas outras classes: 89% contra 15% na Classe I (vasos vermelhos com menos de 0,5 mm) e 94% contra 18% na Classe II (venectasias de 0,5 a 1,5 mm). A diferença foi significativa em todos os tempos e todas as classes (p < 0,001). No grupo tratado só com polidocanol, as taxas médias de eliminação aos três anos ficaram abaixo de 20% e, em alguns casos, as varizes pioraram. Na autoavaliação, 86% das pernas do grupo combinado foram classificadas como satisfeitas ou muito satisfeitas aos três anos, contra 19% no grupo do polidocanol isolado.


O custo: dor

Não houve desistências por dor, e os autores atribuem a tolerância à dosagem aplicada, aos sistemas de resfriamento e a um possível efeito anestésico do próprio polidocanol. Quanto aos efeitos adversos, 7,73% das pernas do grupo combinado apresentaram alguma alteração aos três meses — hiperpigmentação (5,02%), hipopigmentação (1,16%), bolhas (1,16%) e matting (1,54%). Todos se resolveram, exceto quatro casos de hipopigmentação (0,77%) que persistiram até o terceiro ano.
O que o estudo não autoriza afirmar
A escala de eliminação usada não discrimina bem entre 4 pontos (80%) e 5 pontos (100%) — os próprios autores registram essa limitação, e uma nota 5 indica apenas que o resultado está mais perto de 100% do que de 80%. O desfecho é fotográfico e subjetivo, classificado por avaliadores cegos, não uma medida objetiva de oclusão. A população é composta apenas por mulheres, de um centro único, com refluxo do sistema profundo excluído por Doppler: nada aqui se aplica a tronco safeno insuficiente nem a vaso acima de 4 mm. Os autores registram também que não está determinado se novas venectasias se formarão a longo prazo, nem se o método tem valor preventivo. É evidência de eficácia e de durabilidade em três anos para um perfil específico de paciente — não garantia de resultado, e a indicação continua sendo individual.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).