A dor caiu e o analgésico não: a recuperação que o HELP-2 mediu
O ensaio randomizado de Samuel e colaboradores é citado pelo desfecho técnico. O bloco de desfechos secundários conta outra história: a dor foi menor do 4º ao 7º dia no braço do laser, sob a mesma prescrição analgésica e sem diferença na frequência de ingestão de analgésicos.
Ver a aula em vídeoO HELP-2 é citado pelo desfecho primário, que era técnico: a abolição do refluxo da veia safena parva ao ultrassom duplex em 6 semanas. Dor, tempo de recuperação e qualidade de vida entraram como desfechos secundários — e é nesse bloco, menos citado, que está a informação que o cirurgião usa na consulta.
O desenho
Foram avaliados 767 pacientes para elegibilidade; 106 foram randomizados em dois braços de 53, num único centro terciário, com reavaliação nas semanas 1, 6, 12 e 52. O braço cirúrgico foi submetido a exploração formal da fossa poplítea sob anestesia geral, com ligadura safenopoplítea e fleboextração por inversão; o braço endovenoso, a ablação a laser sob anestesia local tumescente em sala de procedimento ambulatorial.
A analgesia foi protocolada — e igual nos dois braços
Este é o detalhe que muda a leitura de todo o resto. Ambos os grupos receberam instruções escritas idênticas para mobilizar-se imediatamente e retomar as atividades assim que se sentissem confortáveis. E ambos receberam a mesma prescrição: diclofenaco 50 mg 3 vezes ao dia e paracetamol 1 g 4 vezes ao dia, para uso regular, na ausência de contraindicação. A dor foi registrada pelo próprio paciente, em diário, com escala analógica visual não marcada de 10 cm, diariamente durante a primeira semana.
O que a dor mostrou
A frase seguinte do artigo é a que raramente aparece nos resumos: essa diferença ocorreu apesar de não haver diferença na frequência de ingestão de analgésicos entre os grupos. O efeito é real e foi medido sob um teto analgésico comum aos dois braços — e, ao mesmo tempo, não foi grande o suficiente para alterar o consumo de medicação. Consequentemente, os pacientes retornaram ao trabalho e às atividades de rotina mais rapidamente após EVLA (P < 0,001).
Morbidade periprocedural: o que separou e o que não separou
A inadequação para anestesia geral em regime de hospital-dia exigiu internação em 4 de 53 pacientes do braço cirúrgico (7,5%) contra 1 de 53 no braço EVLA (1,8%), sem significância estatística (P = 0,362). A duração média do procedimento também não diferiu: 63,6 minutos (DP 16,6) na cirurgia contra 58,5 (DP 14,8) na EVLA, P = 0,111.


O Venous Clinical Severity Score caiu de uma mediana basal de 3 para 0 ao final de 12 meses em ambos os grupos (P < 0,001 dentro de cada braço), sem diferença entre os grupos em nenhum momento. Os dois tratamentos também produziram melhora semelhante e durável na qualidade de vida específica da doença e nos domínios genéricos.
O que o estudo não autoriza afirmar
Pela natureza das intervenções, não foi possível cegar pacientes, cirurgiões ou avaliadores — e os desfechos de recuperação são exatamente os autorrelatados, os mais sensíveis a esse viés. Os próprios autores registram que o estudo foi subdimensionado para a análise detalhada de qualidade de vida e que, portanto, não pode confirmar nem refutar qualquer benefício real da EVLA sobre a cirurgia nessa área; e que, como o ensaio não foi dimensionado para análise de qualidade de vida, a morbidade da taxa aumentada de neuropatia precoce no grupo cirúrgico não é clara. Acrescente-se: é um centro único, com 106 pacientes, e os valores de P da dor foram apresentados dia a dia, sem correção para múltiplas comparações. A leitura defensável é estreita — entre o 4º e o 7º dia a dor foi menor sob a mesma prescrição —, não "o laser dói menos".
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).