Não é a meia — é onde a pressão cai
A diretriz conjunta de cinco sociedades revisou a evidência de compressão após tratamento invasivo de veias superficiais. A recomendação com maior nível de evidência não é sobre usar meia: é sobre pôr pressão focada em cima da veia tratada.
Ver a aula em vídeoA prescrição de meia elástica após safenectomia, flebectomia ou ablação térmica vem da experiência clínica de gerações — não de um ensaio que a tenha testado. A diretriz conjunta do American Venous Forum, da Society for Vascular Surgery, do American College of Phlebology, da Society for Vascular Medicine e da União Internacional de Flebologia foi escrita justamente para organizar essa evidência dispersa. O resultado é menos confortável do que a prática sugere.
A recomendação que muda a conduta
A recomendação 1.1 — usar compressão quando possível após procedimento cirúrgico ou térmico — é GRADE 2, nível de evidência C. A recomendação 1.2 é mais específica e tem nível de evidência B: se houver curativo compressivo no pós-operatório, pressões acima de 20 mm Hg junto com coxins excêntricos posicionados diretamente sobre a veia ablacionada ou operada oferecem a maior redução de dor pós-operatória.

Por que o coxim funciona
O objetivo da compressão pós-procedimento é manter a oclusão da veia tratada. Para isso a pressão externa precisa superar a pressão intravenosa, que depende da posição do corpo. Em decúbito, menos de 10 mm Hg já estreitam a safena magna. Em pé, são necessários mais de 50 mm Hg na perna e de 30 a 40 mm Hg na coxa para ocluir a veia. Pela lei de Laplace, o coxim reduz o raio local e eleva a pressão naquele ponto: nos estudos revisados, os valores foram de 18 mm Hg com uma meia isolada a quase 100 mm Hg com duas meias e coxim excêntrico na posição de pé.

Um caso-controle conduzido em três centros europeus comparou 36 pacientes com duas meias e coxim de coxa contra 17 pacientes com duas meias isoladas: a dor global foi 49% menor no grupo com coxim, sem diferença em eventos adversos. O ganho, porém, tem contrapartida. Em outro ensaio, com 54 pacientes randomizados em três grupos — meia de 23 a 32 mm Hg, bandagem adesiva, e meia com coxim excêntrico sobre a safena magna da coxa —, o grupo do coxim alcançou as maiores pressões e também mais eventos adversos menores, sobretudo irritação de pele pela fita de fixação. Nenhum paciente, em nenhum grupo, apresentou trombose venosa superficial ou profunda.

Depois da escleroterapia, a evidência se divide
A recomendação 3.1 sugere compressão imediata após escleroterapia (GRADE 2, nível C). Kern e colaboradores randomizaram 100 pacientes para meia de 23 a 32 mm Hg por 3 semanas ou nenhuma compressão após sessão única de escleroterapia líquida: três semanas de compressão contínua deram o melhor desaparecimento dos vasos — avaliado em fotografias por dois revisores cegos, em média 52 dias depois — e reduziram de forma estatisticamente significativa a hiperpigmentação. Weiss e colaboradores, em 40 pacientes, também encontraram melhora superior ao controle nos três subgrupos comprimidos (3 dias, 1 semana e 3 semanas), com menos hiperpigmentação nos grupos de 1 e 3 semanas.
O que a diretriz não autoriza afirmar
Este documento não demonstra que a compressão seja melhor do que nenhuma compressão após ablação ou safenectomia — e os próprios autores dizem por quê: nem os ensaios randomizados nem o estudo caso-controle revisados incluíram um grupo sem compressão. Os investigadores testaram níveis diferentes de compressão, não a sua necessidade. A qualidade geral das publicações é descrita como inadequada por amostra pequena, ausência de cegamento, ausência de randomização, falta de dados sobre a força de compressão e desfechos inconsistentes. Qualquer extrapolação, escrevem os autores, deve ser considerada especulativa.
Sobre a duração não há recomendação com evidência: a diretriz 2.1 e a 3.2 remetem ao melhor julgamento clínico (BEST PRACTICE). O NICE orienta não usar bandagem ou meia por mais de 7 dias após tratamento intervencionista. Em 101 pacientes tratados com radiofrequência, 4 horas de compressão não foram inferiores a 72 horas — o grupo de menor duração teve, inclusive, maior redução de volume da perna e menos complicações, sem diferença em dor ou tempo de recuperação. Nada disso substitui a avaliação individual: a conduta é do cirurgião vascular que examinou aquele membro.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).