A veia da testa drena para o seio cavernoso
A veia frontal dilatada parece um problema de superfície. Não é: parte da sua drenagem segue pelas veias oftálmicas até o seio cavernoso. Um relato de caso brasileiro descreve a anatomia, o risco e as três manobras que a técnica exige.
Ver a aula em vídeoAs veias da região frontal da face podem dilatar de forma exagerada no choro, no sorriso, no estresse, no esforço físico e ao abaixar a cabeça — e o afinamento da pele e a atrofia do subcutâneo com a idade agravam o aspecto. O que transforma essa queixa num problema vascular, e não estético, é o destino do sangue que passa ali.
A anatomia da drenagem
As veias frontais — supratroclear direita (RSV) e esquerda (LSV) — originam-se na testa e comunicam-se com os ramos frontais da veia temporal superficial. Convergem formando um tronco único que passa pela linha média da fronte e se comunicam na raiz do nariz por um ramo transverso, o arco nasal. Separam-se no nariz e unem-se à veia supraorbital para formar a veia angular. A drenagem da angular é, em parte, dirigida pelas veias oftálmicas superior e inferior ao seio cavernoso; a outra rota é a veia facial, que drena na jugular interna.
O risco é nomeado sem rodeios no artigo: a administração inadvertida do agente esclerosante pode levar a trombose asséptica iatrogênica do seio cavernoso, com quadro que pode combinar tumefação, ingurgitamento vascular, pulsação orbital e exoftalmia. Por isso, antes de indicar o tratamento, os autores estudam anatomia e fluxo com ultrassom Doppler e realidade aumentada, induzindo mudança de calibre no consultório com o paciente em decúbito frontal e posição de Trendelenburg.
O caso: o laser isolado não resolveu
Paciente de 43 anos, bailarina, sem comorbidades, atendida em fevereiro de 2022 por desconforto não estético com os vasos da fronte, com dilatação significativa após esforço físico. A conduta inicial foi Nd:YAG 1064 nm de longo pulso isolado: 2 sessões com intervalo de 15 dias, ponteira de 6 mm, 20 ms de tempo de pulso e 60 a 70 J/cm², com 3 passadas em toda a extensão em cada sessão. Na terceira consulta não havia regressão da veia frontal.

A técnica combinada seguiu três passos que o relato descreve como deliberados. Primeiro a posição: paciente em decúbito frontal, Trendelenburg, com a punção de cada supratroclear feita o mais próximo possível do couro cabeludo. Depois, durante a injeção, compressão manual na região da glabela, com o objetivo declarado de fechar a drenagem para a veia angular. Só então o laser QS Nd:YAG 1064 nm, com 3 passadas em toda a extensão, 50 J/cm², 20 ms e spot de 6 mm — e curativo compressivo no trajeto das veias ao final. Em 15 dias, a veia frontal esquerda não era mais visível nem durante a prática esportiva nem após a manobra de Trendelenburg; a direita exigiu nova sessão, com os mesmos 0,3 mL e laser de 40 a 50 J/cm².

Por que o Nd:YAG tem limite aqui
O Nd:YAG 1064 nm é descrito como o laser mais versátil para vasos faciais, útil em telangiectasias e veias reticulares, porque as combinações de spot e tempo de pulso permitem parametrizar para tipos diferentes de veia. Seu limite é mais restrito em veias de calibre maior que 3 mm e de fluxo mais rápido; e, por razões físicas, a distância da veia varicosa à pele não deve exceder 3,5 mm a 4 mm. O estudo pioneiro de Weiss e Weiss, em 1999, havia demonstrado eficácia em vasos de membros inferiores com calibres de 0,5 a 3,0 mm. A alternativa citada para veias faciais — EVLA 1470 nm com fibra radial de 400 micra — tem custo operacional maior, gera mais desconforto e idealmente é feita sob anestesia local com sedação anestésica em unidade hospitalar.
O que este relato não autoriza afirmar
Trata-se do relato de um único caso, uma paciente, sem grupo de comparação e sem seguimento de longo prazo: não estabelece taxa de sucesso, taxa de complicação nem superioridade da combinação sobre a monoterapia. Os próprios autores registram que o mecanismo de interação entre parede do vaso, espuma de polidocanol e irradiação laser ainda não está bem estabelecido, e que as hipóteses de sinergia são as mais aceitas, não as demonstradas. O único dado de durabilidade citado vem de outro trabalho — o estudo longitudinal, observacional, controlado e retrospectivo de Moreno-Moraga, de 2019, que analisou 404 pernas e concluiu boa resolução em 5 anos com o tratamento combinado — e trata de membros inferiores, não de face. A conclusão dos autores é conservadora: em veias faciais, telangiectasias e reticulares, o Nd:YAG 1064 nm deve ser indicado como primeira opção e como tratamento isolado, reservando-se a combinação com esclerosantes aos casos resistentes. Nada disso é promessa de resultado: a indicação depende da avaliação individual, com mapeamento da drenagem, feita por cirurgião vascular.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).