Resfriar a pele: analgesia, proteção — e por que não é licença para subir a fluência
Um estudo split-lesion com 37 pacientes tratou metade de cada lesão com placa de safira resfriada e a outra metade com o resfriamento desligado. A dor imediata caiu e 82% preferiram o lado resfriado — mas a fluência ótima não mudou. O mecanismo explica por quê, e o limite da extrapolação é grande.
Ver a aula em vídeoO resfriamento de superfície entrou na rotina do laser cutâneo carregando duas promessas que raramente são separadas: reduzir a dor e proteger a epiderme a ponto de permitir uma fluência maior. São coisas distintas — uma é tolerabilidade, a outra é eficácia — e este estudo testou as duas no mesmo paciente.
O desenho split-lesion
Trinta e sete pacientes com nevo de Ota foram recrutados no ambulatório de dermatologia do Queen Mary Hospital, em Hong Kong, e submetidos a 148 sessões de tratamento com laser Q-switched de alexandrita. Dez homens e 27 mulheres, de 8 a 55 anos (média de 29,7). Antes do tratamento, a enfermeira de pesquisa dividia a lesão em duas metades com caneta: uma metade era tratada com uma placa de safira resfriada em contato com a pele, a outra com o mesmo laser e o resfriamento desligado.

O controle foi levado a sério: para garantir que a placa do lado não resfriado estivesse à temperatura ambiente, ela era aquecida com gaze morna e testada no antebraço do operador antes do procedimento. O criogênio (tetrafluoretano) era conduzido por tubulação até a peça de mão, cuja janela de safira tinha abertura circular de 4 cm de diâmetro atravessada pelo feixe, com área de visualização de 2 cm e monitor de temperatura em tempo real. A pele era resfriada a 4 °C. Todos os pacientes receberam EMLA sob oclusão com tegaderm duas horas antes.
A fluência foi testada, não arbitrada
Os testes de dose começavam em 5 J/cm², com incrementos de 0,5 J/cm², imediatamente ao lado da marcação. O teste era interrompido quando surgia púrpura ou erosão, e a fluência ótima era definida como a maior fluência que provocava branqueamento imediato sem esses efeitos. Foram duas séries adjacentes — uma com o resfriamento ligado, outra com ele desligado. Diâmetro de feixe de 2–3 mm e taxa de repetição de 3,3 Hz nas duas metades. As respostas foram colhidas por enfermeira treinada logo após o tratamento e uma semana depois, em escala visual de 10 cm (0 a 10), com análise pelo teste t de Student.
O que mudou e o que não mudou

Oitenta e dois por cento dos pacientes preferiram o lado resfriado; entre os poucos que preferiram o outro lado, o motivo alegado também foi menos dor. Não houve, porém, diferença significativa na fluência utilizada, nem no desconforto, no edema e na dor uma semana após a cirurgia a laser.
Por que o frio não comprou potência
A explicação dos autores é física. Num sistema Q-switched, a duração do pulso é mais curta que o tempo de relaxamento térmico do alvo: cria-se um gradiente de temperatura entre o cromóforo e o tecido vizinho e, quando esse gradiente colapsa, geram-se ondas de choque localizadas que fragmentam o alvo. Esse é o efeito fotomecânico, e o resfriamento não tem influência sobre ele — diferentemente do que ocorre com os lasers vasculares, onde o resfriamento atua sobre um efeito térmico. No terreno vascular, o próprio artigo lembra o trabalho de Chess e Chess, que trataram 13 pacientes com telangiectasias de membro inferior com resfriamento simultâneo ao disparo e registraram redução da lesão térmica ao tecido não vascular.
O que o estudo não autoriza afirmar
A população é nevo de Ota — lesão melanocítica dérmica — e não doença venosa: nada aqui é evidência sobre telangiectasia de membro inferior, varizes ou ablação endovenosa, e a extrapolação direta seria indevida. São 37 pacientes de um único hospital, com desfecho colhido por questionário de dor, edema, desconforto, clareamento e sangramento — não há avaliação de cicatriz, de alteração pigmentar tardia nem de clareamento medido a longo prazo. A conclusão negativa também é específica do sistema: o achado é que o resfriamento não permitiu fluência maior num laser Q-switched, e os próprios autores apontam que o criogênio em spray com duração de jato maior que a usada para resfriamento epidérmico ainda exigiria novos estudos. O que se leva para o consultório é uma pergunta, não uma conduta: no aparelho que você usa, o efeito predominante é térmico ou fotomecânico? Disso depende o que o resfriador está realmente comprando.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).