Telangiectasias · indicação

O laser perdeu em dor e em satisfação — e ainda assim tem indicação

No estudo intrapaciente de Munia e colaboradores a escleroterapia sai na frente em custo e em dor. A conclusão, porém, mantém três indicações nominais para o laser — e explica por que a dor medida diz mais sobre o protocolo do que sobre a tecnologia.

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Quando um ensaio conclui que o método mais barato também dói menos e clareia mais rápido, a leitura fácil é aposentar o concorrente. Não é o que os autores fazem. A conclusão do trabalho mantém o laser Nd:YAG indicado em três situações nomeadas — e vale entender por quê.

Dois mecanismos que não competem pelo mesmo espaço

A escleroterapia com glicose hipertônica a 75% age por desidratação osmótica da célula endotelial. Como ocorre diluição com o sangue e o soro intravascular, a solução tem seu maior efeito no local da injeção ou próximo dele: é um método de alcance curto e inteiramente dependente do acesso ao vaso. O laser Nd:YAG age por fototermólise seletiva — princípio descrito por Anderson e Parrish em 1983 — com densidade de energia acima de 150 J/cm² e tempos longos de exposição, sem depender de punção.

A concentração da glicose hipertônica usada na escleroterapia. É ela que desidrata a célula endotelial por osmose — e, como há diluição com o sangue e o soro intravascular, o efeito maior fica no local da injeção ou próximo dele.
A concentração da glicose hipertônica usada na escleroterapia. É ela que desidrata a célula endotelial por osmose — e, como há diluição com o sangue e o soro intravascular, o efeito maior fica no local da injeção ou próximo dele.

As três indicações que a conclusão nomeia

As três têm a mesma lógica: são cenários em que a injeção ou está contraindicada ou é justamente a causa do problema a ser tratado. Nenhuma delas depende de o laser ser superior em clareamento — dependem de o outro caminho estar fechado.

A dor medida descreve o protocolo, não a tecnologia

Os autores são explícitos: neste estudo não foram utilizados dispositivos de resfriamento da pele além do sistema de resfriamento próprio do laser, e por isso as pacientes relataram mais dor. Eles acrescentam que, quando métodos intensos de resfriamento são eficazes, podem reduzir a dor notavelmente, tornar o tratamento mais tolerável e ainda melhorar a proteção epidérmica. Também registram ter notado menos dor e maior tolerabilidade ao usar spots menores, apesar das energias altas, e citam Levy e Coles, que obtiveram resultados semelhantes com spots descritos como indolores, de 2,5 mm, e pulso de 10 ms, sem creme anestésico tópico. A hipótese de trabalho deles é que pulsos de 20 a 30 ms aquecem a epiderme mais lentamente, protegendo-a da queimadura.

A duração de pulso com que Levy e Coles descreveram spots indolores, de 2,5 mm e sem creme anestésico tópico, na escala das durações que o artigo cita — que vai até os 20 a 30 ms da hipótese dos próprios autores. Mesmo comprimento de onda, outra experiência de dor.
A duração de pulso com que Levy e Coles descreveram spots indolores, de 2,5 mm e sem creme anestésico tópico, na escala das durações que o artigo cita — que vai até os 20 a 30 ms da hipótese dos próprios autores. Mesmo comprimento de onda, outra experiência de dor.

Dois achados que viram conduta

Primeiro: houve uma única cicatriz em todo o estudo, num local tratado a laser, sem comprometimento da aparência estética final — e os autores atribuem o caso à exposição solar prévia da paciente e à consequente maior absorção de energia pela melanina. Isso é critério de seleção e de agendamento, não acaso. Segundo: a hiperpigmentação de vasos maiores apareceu com os dois métodos, e os autores escrevem que poderia ter sido prevenida pela remoção cirúrgica das varizes colaterais nutridoras antes do tratamento.

A literatura contrária que o próprio artigo cita

Em 2002, Lupton e colegas compararam laser com escleroterapia de sulfato de tetradecil sódico em um grupo de 20 pacientes e encontraram resultados melhores com a escleroterapia após duas sessões; no mesmo ano, Coles e colegas apresentaram resultados semelhantes com Sotradecol. O texto também deixa um alerta de formação: a escleroterapia é de baixo custo, mas requer treinamento adequado para produzir bons resultados, e por isso médicos inexperientes podem achar os lasers mais fáceis de operar e escolhê-los por esse motivo. Escolher o aparelho por falta de treino não é indicação.

O que o estudo não autoriza afirmar

O médico aplicador avaliou as fotografias junto com os dois observadores independentes — apenas estes dois eram cegados quanto ao tratamento. A reavaliação fotográfica padronizada foi feita uma semana após o tratamento, o que não mede durabilidade, recanalização nem recidiva. Foram incluídas apenas pacientes com telangiectasias isoladas, classe C1, sem sinais de insuficiência venosa crônica, com um único aparelho e um único aplicador para as duas modalidades. E, sobretudo: matting pós-escleroterapia, fobia de agulha e alergia a esclerosante não foram desfechos medidos neste ensaio — são recomendação dos autores, não resultado do experimento. Nada disso permite prometer resultado: a escolha entre os dois métodos é uma decisão de indicação, tomada em avaliação individual com um cirurgião vascular.

Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).

Formação prática

Esta técnica é ensinada com paciente real.

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