Estágios do lipedema: o que muda na conduta do estágio 1 ao 3 — e o que os meios-estágios acrescentam
Uma série de 102 mulheres estadiadas por uma única examinadora mostra o que sobe de um estágio para o outro — dor, água nas pernas, gordura na patela e no tornozelo, risco de linfedema — e o que não sobe em linha reta, como o IMC. Para o vascular: onde palpar, o que procurar no estágio 3 e o que o estudo não autoriza concluir.
Ver a aula em vídeoO estudo estadiou 102 mulheres com lipedema em cinco degraus — 1, 1,5, 2, 2,5 e 3 — atendidas por uma única médica, em uma única clínica, ao longo de 6 meses de 2024. A régua é clínica: pele lisa com gordura subcutânea aumentada no estágio 1; pele irregular, com ondulações, no 2; lóbulos e dobras de pele, sobretudo em quadril e joelho, no 3. Os meios-estágios entraram porque a paciente frequentemente está entre dois degraus: metade da perna ondulada, ou a coxa inteira ondulada sem lóbulo. A distribuição da amostra é desigual — 8 pacientes no estágio 1, 35 no 1,5, 32 no 2, 8 no 2,5 e 19 no 3 — e isso pesa em tudo que vem a seguir.

Dor: sobe com o estágio, mas 30% do estágio 1 não dói

A panturrilha foi a região mais afetada, com mais de 50% das pacientes relatando dor, inchaço e sensação de peso ali. As autoras citam um estudo suíço com 86,2% de doença venosa crônica em pacientes com lipedema, mas registram que essa correlação não foi feita na série delas. Para o cirurgião vascular, a queixa de panturrilha é esperada no lipedema — a veia não é automaticamente a causa. Os sintomas sistêmicos completam o quadro: fadiga em 87%, névoa mental em 76%, hipermobilidade articular pelo escore de Beighton em 75% no estágio 1, 85% no 2 e 67% no 3 (queda que as autoras atribuem à idade), e hipotermia da pele na termografia, mais frequente nos estágios 1,5, 2 e 3 do que no 1 — avaliação qualitativa, sem número.

Gordura por região: canela cedo, tornozelo tarde
A gordura sobre a tíbia é alta em todos os estágios — as autoras a chamam de sinal precoce e definitivo. A gordura sobre a patela aumenta 40% do estágio 2 para o 3. No antepé, 50% mais pacientes têm gordura no estágio 3 do que no 1. Já a gordura sobre os maléolos e ao redor do tendão de Aquiles é achado tardio, do estágio 3. Na prática: canela gorda com tornozelo fino é doença inicial; canela e tornozelo gordos é doença avançada. É estadiamento pela palpação.
Água e músculo: o que a bioimpedância mostra e o que superestima
A água corporal total nos quatro membros sobe com o estágio, mas separando por membro só as pernas sobem, dos dois lados; os braços não mudam. O índice L-Dex, usado para rastrear linfedema, foi significativamente maior no estágio 3 do que em todos os outros, nas duas pernas — o que coloca a paciente avançada em risco de lipolinfedema, e o exame dela precisa incluir pé, cacifo e Stemmer. O fluido foi menor na perna esquerda em todos os estágios, e as autoras especulam compressão ilíaca subclínica (May-Thurner); é especulação, não medida. A massa muscular estimada sobe junto com a gordura no estágio 3, mas as autoras alertam que a bioimpedância pode superestimar músculo por água, gordura intermuscular, edema e fibrose. No teste de levantar e andar, mulheres em estágio 2 tiveram tempo semelhante ao de mulheres de 80 a 84 anos.
IMC: sobe, mas não é a régua

A idade média sobe de 44,1 anos no estágio 1 para 59,1 no estágio 3: o estágio também é tempo de doença. Mas a tabela traz um detalhe que o leitor crítico confere antes de citar: os estágios 1 e 2,5, ambos com 8 pacientes, aparecem com a mesma idade média e o mesmo desvio-padrão, 44,1 ± 3,9. Coincidência é possível em dois grupos pequenos — mas está lá.
O que o estudo não autoriza afirmar
Primeiro, o desenho: uma única examinadora, em uma única clínica, estadiou toda a série, e a reprodutibilidade entre observadores — declarada pelo próprio artigo como objetivo, para que outros médicos estadiem da mesma forma — não foi testada. Dois estágios têm 8 pacientes cada. É transversal, sem grupo controle sem lipedema, e nenhum tratamento foi comparado; dor, fadiga e névoa mental são autorrelato. Portanto: o estudo não autoriza dizer que o meio-estágio muda o tratamento (ele descreve, não testa); não autoriza usar o estágio como indicação de cirurgia (nenhuma conduta foi comparada); não autoriza vender a bioimpedância como diagnóstico de lipedema (ela mediu água e músculo, e as próprias autoras dizem que superestima); e não autoriza prometer que tratar a veia da panturrilha tira a dor (a correlação com doença venosa não foi feita). O que vale para o consultório é o que se lê com a mão: canela cedo, tornozelo tarde, pé e L-Dex no estágio 3, dor ausente não excluindo o estágio 1, e mobilidade como o critério que decide a próxima conversa. Compromisso sim, garantia nunca.
Conteúdo dirigido exclusivamente a profissionais da saúde. Nenhum resultado individual é garantido: a indicação depende de avaliação clínica e de exame de imagem de cada paciente (CFM 2.336/2023).